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| Pollock, Number One, 1948 |
Levantei e não tomei banho, já sabia que não ia adiantar nada, "limpe seu coração" eles diziam. Escovo os dentes cansados de mastigar a vontade de potência da merda. É tudo merda por aqui. Os cafés com pão de queijo, as amizades, as revistinhas que o governo mandou fazer pra crianças não usarem crack. É tudo pra você comer e depois passar mal. Se teu estômago for de avestruz, passa e você caga. Se for fracote, vai começar a cambalear no meio da rua e tremer toda, vai correr pro banheiro público mais próximo e vomitar até sentir a própria pele de novo, formigando.
Uma das coisas que eu mais gosto em vomitar é a vulnerabilidade. Vulnerabilidade é quando você usa 7 sílabas pra dizer que tem medo de morrer, que abre mão da sua dignidade pra tudo passar. Daí passa. Os olhos injetados, tão vermelhos quanto não conseguiriam ficar novamente. O rosto pálido, a pele faz as vezes de que vai cair. Não cai. fica ali cobrindo os ossos, gelados como as mãos, que suam. O coração grita socorro, socorRo
soc-coRro
soc-corRo
SOc-CORRO.
Bate tão forte que rasga a alma.
A cabeça vai passando do atordoamento pra letargia. Embaixo há sempre a pia, em frente, o espelho. Irreconhecível, irreversível. Sempre fica a impressão de que dava pra ter segurado a onda mais um pouco. Sempre fica a impressão de que não precisava ter desistido. Mas hoje eu sabia que teria que sair pra vomitar não importa o que Deus dissesse. Ele me deu a porcaria do livre arbítrio e eu comi. Comi e depois tive que descomer tudo, na pia do banheiro público. Irredutíveis os fragmentos. É tudo fragmento por aqui, formigando.


Gesto indigesto
ResponderExcluirMargem da imagem
(Marginal)
Poesia
Respira
Vida insossa
-Arte:
Gastrite eterna