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introduçao a macumba forte

sábado, 28 de dezembro de 2013

Mataria

Não mataria por raiva, fúria e menos ainda por ódio. Não mataria por negócios, e menos ainda seria como um desses caras que se alugam nos filmes pra que as contas sejam acertadas. Eu sempre gostei de pessoas as quais eu pudesse olhar e dizer que com certeza são loucas. Têm um brilho fosco vindo dos olhos que, apesar de esquivos, podem penetrar a alma de qualquer um que os persiga por tempo suficiente. Na tentativa de ver minha alma dilacerada procuro estes olhares. Porque sei que matariam por amor, porque são assassinos.

sábado, 16 de novembro de 2013

Saturno em Peixes na casa 9

a dor de não conseguir ser (a ação) é maior que todas as explicações racionais e irracionais que todo ser humano ou não humano poderia dar pra fazer compreender a sensação de não caber. Não caibo a muito tempo (cada vez mais penso que nunca coube) e não vejo perspectivas de caber. É sempre necessário ter um jarro maior já que o Ser (agora em maiúsculo, como indivíduo) é total transbordar. Transbordo porque precisaria dar vazão à experiência, mas não tenho os meios. Se já os tive, me foram tirados. Invejo os crustáceos porque podem procurar conchas maiores, que os comportem. Fui fadada à uma concha que não me cabe.

sábado, 7 de setembro de 2013

Sublimar


   Feche os olhos. Sinta os cheiros. Já não podemos chamá-los de odores - palavra pesada - são aromas, leves tão quanto estes fonemas. Aromas.
   Gosto de pessoas, todas, de como tentam me impressionar dos modos mais distintos.
   Sempre conseguem.
   Quase sempre são demônios, mas eu as amo mesmo assim, não consigo desistir delas. Volto-me novamente aos aromas. Me envolvem e sugerem fumaça, que está dançando, se rebola luxuriosamente, mas sabemos que é pueril. Quer que eu a acompanhe e que dancemos juntas. Me entrego, estou em suspensão, sou como ela, eu a sou.
   As vezes quase sinto que posso caber dentro deste corpo que, mal ou bem, habito; são os momentos em que estou do lado de fora e ele parece cômodo, é a ilusão que causo nas pessoas, nunca em mim.

sábado, 20 de julho de 2013

(...)


Os senhores com seus pés pretos de asfalto, com as mãos pratacobreadas das moedas ganhas durante o dia. A garrafa é translúcida, o cheiro é nauseabundo. O estômago é forrado com a cerveja quente. "CPF na nota?" - diz a atendente em tom sarcástico. Passa as compras, recebe as moedas. Dói. É claro que eles não querem CPF na nota, vagabunda. Aquela mucosa não vê sólidos a dias. A compra deu R$7,47, ela devolve umas moedas de troco.Sólidos ficam ali no intestino, empedrados. Pedra nos rins, pedra na lata. O decote da mocinha da fila ao lado excita, mas o impulso é de abrir a translúcida e sentir o líquido inflamável escorrer pelo próprio interior. Ninguém liga. É a crônica das ruas.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Hoje eu saí pra vomitar

 

Pollock, Number One, 1948


   Levantei e não tomei banho, já sabia que não ia adiantar nada, "limpe seu coração" eles diziam. Escovo os dentes cansados de mastigar a vontade de potência da merda. É tudo merda por aqui. Os cafés com pão de queijo, as amizades, as revistinhas que o governo mandou fazer pra crianças não usarem crack. É tudo pra você comer e depois passar mal. Se teu estômago for de avestruz, passa e você caga. Se for fracote, vai começar a cambalear no meio da rua e tremer toda, vai correr pro banheiro público mais próximo e vomitar até sentir a própria pele de novo, formigando.
   Uma das coisas que eu mais gosto em vomitar é a vulnerabilidade. Vulnerabilidade é quando você usa 7 sílabas pra dizer que tem medo de morrer, que abre mão da sua dignidade pra tudo passar. Daí passa. Os olhos injetados, tão vermelhos quanto não conseguiriam ficar novamente. O rosto pálido, a pele faz as vezes de que vai cair. Não cai. fica ali cobrindo os ossos, gelados como as mãos, que suam. O coração grita socorro, socorRo

soc-coRro

soc-corRo

SOc-CORRO.

   Bate tão forte que rasga a alma.

   A cabeça vai passando do atordoamento pra letargia. Embaixo há sempre a pia, em frente, o espelho. Irreconhecível, irreversível. Sempre fica a impressão de que dava pra ter segurado a onda mais um pouco. Sempre fica a impressão de que não precisava ter desistido. Mas hoje eu sabia que teria que sair pra vomitar não importa o que Deus dissesse. Ele me deu a porcaria do livre arbítrio e eu comi. Comi e depois tive que descomer tudo, na pia do banheiro público. Irredutíveis os fragmentos. É tudo fragmento por aqui, formigando.

sábado, 30 de março de 2013

soy hombre

   E eu tentava fazer daquilo um joguete, ela fazia os ovos, eu fazia as honras, distribuía sorrisos, e quem sabe mais tarde ela me mostrava de novo as pernas, os peitos, e o que mais eu quisesse por ter sido um bom garoto. Mas a verdade é que cada segundo naquele ambiente me arrancava um pelinho do saco com a pinça. O ar era irrespiravelmente puro, os cabelos devidamente penteados, as roupas não deixavam nenhum pedaço de corpo se mostrar, eram verdadeiras burcas de quinhentos reais,  e tinham os dentes. Puta que pariu, que dentões,  os velhacos abriam as boconas e saltavam aqueles ossos tão brancos que me cegavam,  nenhum postiço, todos devidamente alimentados com seus vegetais frescos e sua água fluoretada.
   Arrastei  Jô e mandei que ela desse tchau ou então eu ia ficar maluco. Ela riu da minha cara, ela adorava rir da minha cara e eu sempre dava motivo,  e falou pra eu ficar quieto e que estava me saindo muito bem. “Tu o dizes” – retruquei encarnando o próprio Cristo. Mas ele pelo menos conseguiu morrer pra não ter que aguentar essa baboseira de ricos.
   As madames resolveram que a água estava ótima e lá foram vestir seus maiôs de banho. Que cena maravilhosa, aquelas pelancas contrastando, fazendo jogos de luz, sombra e sobras, eu me contentaria com aqueles mil furinhos se não tivesse as pernas que nunca acabavam. A piscina era meio nojenta, na minha concepção todas são. Imagine um cubo cheio de água, uma grande bolsa amniótica, e então você coloca pessoas ali, um monte delas, e lá elas ficam batendo os pés fedidos com os genitais separados somente por uma camada de tecido ao invés das habituais duas. Se bem que já faz tempo que eu não uso uma cueca... É, ela fazia por caridade.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Roleta Russa


   Acordo mais cedo, como de costume. Não me canso da falsa sensação de aguentar mais que os outros, é quase motivador. Tomo um banho, preparo um café que saiu melhor que os que tenho feito ultimamente. Talvez esses pequenos acontecimentos façam as pessoas pensarem que eu sou boa em tudo.
   Faz mais de um mês que não tenho um cigarro. Nunca senti falta, não até agora. É engraçado como o momento sempre chega. Eu espero, e ele apenas vem. Não me atinge com força, só me sopra a mesmice que pode se tornar a vida quando se deseja justamente o contrário. Se eu tivesse grana acho que me compraria um dia diferente, todos os dias. E esses dias não tenho tido grana nem pra sair bêbada de dentro daquela espelunca em que ainda me vendiam fiado.
  Pelo menos eles já desistiram de ter alguma fé em mim. Prefiro o conforto de ser nada à pressão de ter que ser tudo na vida de alguém. Não gosto disso de ter todas as fichas apostadas em mim, eu sei que uma hora vou dar o azar e fazer todo mundo perder um dinheiro, umas amizades, o amor próprio. Peguei uma bolsa e meti qualquer roupa pra umas duas semanas. Eu não me importaria em não ter roupas se pudesse ficar só. Por mais contraditório que pareça, um de meus defeitos é a timidez. Ou mesmo a falta de caráter.
  E por isso decidi que sairia assim sem ser vista, à francesa, eles dizem. Quem quer sair com uma porra de francesa da perna cabeluda, vá-te a merda com a francesa. Fui à padaria, comprei dois cigarros. Subi, deixei um sobre a mesa, acendi o meu, peguei a bolsa e saí. Essas coisas se superam.