Nasci estrábica. Nasci com a ideia de que existem dois mundos. Nasci com a ideia de que havia naquela mesa, dois potes de biscoitos.
Foi então que tentei comer um biscoito, e descobri a inexistência do tal pote. A decepção em ver algo nitidamente e não conseguir apalpá-lo. Vazio.
Com o tempo meu cérebro aprendeu a usar um olho (e ver um mundo) de cada vez. E aprendeu tão bem que não tem ideia de como juntar essas dimensões novamente.
Desde então passei de estrábica a louca. Usando um olho de cada vez, uma pessoa de cada vez.
O olho direito, o da visão perfeita, o que uso para me comunicar com as pessoas. Assim como ele, pareço perfeita, sempre bem. Sempre mentindo.
Esquerdo, o olho esquerdo fica ali, no canto esquerdo, como abandonado. Um mundo abandonado. Ou seria propositalmente oculto. Sendo usado de vez em quando, apenas em momentos onde não há ninguém com o pensamento nela, que sou eu.
Uma vez aos meus nove anos, tive uma inspiração que me fez escrever um poema sobre essa tal visão dupla, sobre ter uma visão do bem e outra do mal. Pensamentos até bons demais pra uma pirralha.
É claro que seria uma visão perfeitamente adequada para uma menina de nove anos. Não para uma de dezesseis. Não para uma que vive duas vidas. Não para uma que não sabe qual mundo escolher, por achar ambos tão certos e tão bons.
Quisera eu apenas ficar contemplando os dois potes de biscoitos.


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